terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ausência

Era um fim de tarde brando e a brisa se deparava levemente contra a minha janela, fomentando uma tenra sensação de frio. O sol se esvanescia e os azuis do céu manavam em diferentes tonalidades, alaranjados, esverdeados, róseas. Ao passo que os meus olhos se deparavam com aquela desavinda chuva de cores, a esperada penumbra portava-me uma costumeira crise. Faltava-me o costumeiro álcool e o costumeiro cigarro, porém - o que levou-me então, a m'afundar aos poucos. Joguei-me na cama, olhos pesados de exaustão, corpo nu de figurinos, rostos desvestidos de maquilagem. Eu, nítida e genuína.

Foi aí então que me senti vazia.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Paulistana

Estes teus sussurros fazem-me
querer cruzar o Ipiranga,
Jogar-me pela Rebouças,
Caindo pelos Jardins.

Estes teus relances, em meio
a rebocos de minha vida,
fazem-me querer respirar teus olhos,
cair no perfume de teu beijo.

Esqueço-me de tua constante ausência
-versos, e gozos, e súplica.
À teu dorso, sinto-te essência:
teus silêncios preenchem minha música.

Restares

Tragava sua dor como um vício que, apesar de oferecer escolha, esbanja unicidade. Em sua realidade morta, quedava-se deitada, olhares ao teto, às paredes, olhares fechados, abertos. Piscares. Passares do tempo. Não sabia mais do que gostava. Lembrava-se de alguns pequenos gostares, apenas. Alguns pequenos prazeres. O barulho de folhas secas quando tocadas, melindradas pesadamente, ou apenas melodiosamente estreitadas com o solo. Ah, sim, gostava também do som do violino, fino, agudo e brando o suficiente para subir-lhe os cabelos do braço - isso! Gostava do arrepio, sim, como gostava daquele ar que se passava timidamente e quase que inesperado pela sua nuca, pelo seu ouvido. Palavras de amor. Gostava destas, quando sussurradas em seu ouvido, de imprevisto. Improviso! Iria atrás de olhares inéditos, de pessoas repentinas; gostava que sua vida se parecesse uma poesia, nada parnasiana, mas mal-acabada, meio que às pressas, ainda que avassaladora.

Silêncio. O jazz que costumava deixar na vitrola foi trocado por Piazzola - horas a fio de um tango que parecia lhe ilustrar a vida - , e posteriormente deixado de lado pelo silêncio. Não se lembrava de como tinha se tornado tão amarga. Talvez teria sido a bebida, que já substituiu a sua alimentação. Bebia para que os outros a esquecessem. E há tempos não comia. Secava-se de fome. No início de seu jejum, definhava-se em sofrimento, desaguava-se em vazios, acabava-se em doses de vodka.

Mas, ainda neste início, apesar de extenuada de ausências e morta de fome, ainda se alimentava de romances. No entanto, agora restavam-lhe apenas memórias.

[Murcha] [Decaída] [Desvigorada]

E os piscares.

domingo, 12 de setembro de 2010

Concreto Livre


Era uma cidade concreta e moderna - ou pelo menos era esta a pretensão. Impecáveis matemáticas eram a base de suas ideias arquitetônicas. Poder-se-ia dizer que cada candango inventava a sua própria catedral simbólica, em suas ambições, crenças e desejos. Considerava-me um candango, e é até engraçado dizê-lo. Vim à cidade em busca de uma nova vida. Como caminhoneiro, em meus apenas vinte anos, já conhecia o Brasil de cima à baixo, mas já pensava em quetar-me e quedar-me em um lugar.

Lembro-me especificamente bem de quando conheci Estella. Foi na inauguração da cidade. Na esplanada, bandas de rock ilustravam a modernidade. O céu de Brasília era promissor, e assim também eram as pessoas que ali inventavam uma cidade. Juscelino fazia seu discurso e eu, próximo a ele, fitava aquela multidão de candangos e políticos, até meus olhos encontrarem os dela. Tinha os cabelos desgrenhados, lábios cheios e olhos nordestinos. Era filha de alguém importante, isso eu podia dizer a primeira vista. Prendi aos olhos dela os meus, tornaram-se desimportantes as palavras de Juscelino, o sonho de Lúcio Costa e as belezas de Oscar Niemayer. Não me lembro o tempo que nos olhamos, pode ter sido alguns segundos ou horas a fio, mas foi tempo o suficiente para que passasse na minha cabeça a preocupação de com que dinheiro eu lhe compraria o anel.

Lágrimas Marítimas

De volta ao navio. Mais uma vez, arrumo as malas - que já se tornaram o meu armário -, estudo a rota e encaminho-me ao porto. A vida que aqui construí parece-me uma estória ilusória de navegação, parte de minha profissão. Sigo pelo oceano, antes em rios caudalosos, meus soluços como vítimas de lágrimas marítimas, Os mapas já decorados de tanto fitá-los, Percebo que passei a colecionar vidas como coleciono estrelas, em suas diferentes constelações em que as vejo nas diversas imensidões oceânicas em que já me vi.

Penso em, talvez, retornar. O carinho que criei. A família que fiz. Os sonhos que inventei em meio a suspiros apaixonados. Melhor recomeçar - é mais saudável, disso já sei. Enxugo o meu rosto e, ao lavar minhas mãos nestes mares, deixo minhas memórias ao pacífico.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Pedaços de solidão noturnos à Nassar

Dormíamos em quartos separados, éramos como esses casais modernos, que prezam pelo espaço e não seguem as tradições. Fazíamos já quarenta anos de casados, alguns nos olhavam com admiração, diziam o quanto nos devíamos amar. Acho que eu compartilhava dessa ilusão, de que de fato nos amávamos.

Esta noite, acordou-me em meu sono e, como sonâmbula, abriu minha porta sem nem bater - o que não era de costume -, com sua camisola descorada e um olhar que, apesar de não conseguir vê-lo na penumbra, presumia sê-lo taciturno. Quedou-se ali, em pé e em silêncio, como quem está a poucos passos de desmoronar - e eu cheguei a pensar que ela o faria, cairia em prantos, com estrondo. E eu também não ousei proferir uma palavra. Chegou perto a mim, deitou-se ao meu lado, e eu pretendi costumice, virei pro outro lado, como se o hábito percorresse a madrugada.

Ela levantou-se e foi ao canto do quarto. O seu estancamento tornou-se inquietação, e ela passou a perambular em um espaço mínimo. Roía suas unhas, mexia-se com os pés e cambiava suas expressões com veracidade. Chegou perto à minha cabeceira, e apanhou um dos meus blocos de anotações, nos quais eu guardava meus textos e poesias, e ela nunca ousava abrí-los sem que eu pedisse para que opinasse. Colheu, também, uma caneta que sempre deixava ao lado destes. Abriu a primeira página, na qual permeava uma poesia antiga que ali se detia como memória. Fitou-a com desdém e escreveu por cima, com letras garranchadas e despreocupadas, como um grito de súplica sonâmbulo:


- Pra onde foi o nosso amor ?

domingo, 1 de agosto de 2010

Romance com Clarice*

* Que sorriso você tinha. Combinava com os teus olhos, que fitavam veementemente e sentiam varonilmente. Você era todo aprumada, toda encantadora, olhares artísticos e palavras meio roucas. Lábios silentes, cílios expressivos, e um andar que te denunciava. Eu amava os teus fios de cabelo ruivos, finos e curtos que, apesar da pequenez, você insistia em prendê-los para trás. Para dizer a verdade, nos vimos poucas vezes - por esbarros ou coincidências-, mas eu tinha vontade de lhe falar a todo momento: Vamos nos casar, vamos nos casar numa vila pequena na Índia, ou na Turquia, que ninguém saiba, que ninguém veja, e fiquemos só nós dois, um com o outro - é fácil conseguirmos ficar juntos quando não há o mundo entorno para palpitar. Vamos nos casar em algum lugar pequeno e secreto da cidade grande.

Mas você não creeria. Ou simplesmente não quereria. Na tua mudez plena de palavras, também te compreendia pouco. A verdade é que você fazia questão de que ninguém te compreendesse. Insistias: - Não se preocupe em me entender. Me viver vai aquém de qualquer entendimento. - Mas você era várias, você era tantas, uma quase-todos, uma quase-tudo. E eu sabia, eu tinha certeza de que eras um mistério pra ti mesma.