quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Estendimento, Entendimento.

Ouço os meus passos -
ecoam em palavras,
espaços,
nadas.

Converso o meu silêncio,
Pavoro o meu medo,
a minha ânsia
da fala.

Me contrario em mim,
em ti, neles, em nós,
no mundo
no penso -
na voz.

Em meus exageros,
sem mesmo hesitar,
mastigo-me em pedaços.

Em minha antropofagia -
me, te, nos tomo.

E, ainda assim, me penso;
me paro; me vejo;
pisando em ovos
que nem mesmo como.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Quando o Mundo Plantou Bananeira

O dia em que o mundo mudou de lugar, foi neste dia. Lá na Biquinha, onde eu nasci, cresci, e achei que ia morrer. Até que veio este dia. Um dia meio aburrecido, meio cabreiro, dum jeito que todo mundo admitia que alguma mudança tava por vir. Talvez não pra todos, mas pra mim foi deste jeito e só.

Lá na Biquinha, interior dos interiores de Minas, a gente não tinha bem uma religião. A nossa religião era bem tudo que a gente acreditava, era o que a gente sabia que havia, que pensava certo. A nossa religião era saber que as folhas eram verdes, e que o céu era uma mistura de cores. A nossa crença era o mundo lá fora; era o quilo de melado que a gente comia 'as 6 da manhã, antes de começar a trabalhar no engenho; era a catapora. A gente sabia que o mundo era assim, deste jeito, e que os erros sempre existiram, desde a pré-história e, pois, sempre existiriam. Pois onde não tem erro, não tem acerto. E um mundo todo desacertado por ser certo, não havia espaço onde coubesse essa trambiqueira toda de cafusidão.

E a minha crença maior, a certeza inquestionável que eu tinha era apenas que o mundo acabava bem onde o Sol entrava. Era longe, isto eu sabia. E por isso sabia do tanto que eu ainda tinha pela frente de caminho. Ali, onde, no final do dia, as cores se misturavam, róseo, azul, amarelo, era bem ali que havia aquele ritual todo para a morte. Todos os dias alguém bem devia morrer e eu não sabia. E tinha dia que era gente tão importante, que o tal 'por-do-sol' se passava por espetáculo.

E foi então que chegou este dia. Eu já havia me tornado caminhoneiro, estava a caminho de Três Corações, cidade considerada pequena, mas que pra mim era grande, quando parei num canto pra dormir, me aconcheguei do lado de um posto, e ao ir pegar a comida do dia, esbarrei com um homem de olhos puxados. Dizia ser japonês. Achei bem que isso era nome. Pedro Japonês. E me explicou que não, que Japão era um país; e que diabos é país, hômi; e me veio explicando, toda a história que ele sabia, e eu pensando ser conversa fiada, mas foi me convencendo aos poucos. Dizia que o Japão era do outro lado da Biquinha. Como se se a gente furasse o mundo, cavasse um buraco na biquinha, e atravessasse o mundo inteiro, a gente chegava no Japão. E eu lhe disse que isso não era possível, que as terras da biquinha já estavam ressecadas demais, e a gente não teria condição de ficar dentro de um buraco por tanto tempo. E imagine, atravessar o mundo não devia demorar menos de um dia. Eu lhe disse que não quereria conhecer, não queria conhecer o Japão.

Mas lhe perguntei de sua vida. Me contou como seu pai veio parar no Brasil, em 1910, num navio Rojun Malucu, Raijun Maruco, Ryojun Marucom, sei lá como se diz, e me parece bastante é difícil. Com uma tal leva de japoneses. Disse que 906 famílias vieram junto, imagine o tanto de gente. E me contou histórias tantas, do navio, de seu pai, que contarei a vós logo em seguida.

Mas o que me alavancou a cabeça foi bem outra coisa que ele falou. Quando lhe perguntei o que era diferente, do Brasil, do Japão, ele me veio com tantas histórias, mas uma específica. Disse o japonês que a maior graça de diferença era que quando o Sol entrava no Brasil, ele tava saindo no Japão.

E foi então que o meu mundo desabou. Como assim, ele sáia no Japão logo quando entrava aqui. Quer dizer que quando a gente morre, a gente vai pro Japão, quer dizer, quer dizer que, que, quando a gente morre, não é bem onde o Sol entra, e aquelas cores tantas, eu já nem sabia mais explicar, eu já nem sabia o que era, eu já nem sabia.

Foi bem neste dia que o mundo fez bananeira, virou de cabeça pra baixo. E o Sol desviou o caminho;
E eu, de pernas pro ar, resolvi caminhar pros lados; ou no ar; ou, simplesmente, não caminhar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Pingo do "i"

A menina ainda era menina, vinda duma parte do mundo que chamavam de fim e ela chamava de inicio. Mas era longe. Longe como bem o pingo. Longe como o pingo no "i", o que é muito mais longe do que longe como bem o pingo da chuva. Pois vir de longe na letra é vir de longe na palavra, o que desemboca numa enroladura que pode se perdurar infinitamente. Já vir de longe na chuva era vir de longe no espaço, caminhar besta que rápido se chega.

A menina era de longe, do fim, do concreto, do mundo. Ela vinha dum mundo que não era mundo, que tinha um chão em que nao se pisava. No mundo, havia palavras, tantas letras, tantas grafias, era tal mundo assim, cheio de conceitos. Um tal mundo de ideias. Um tal mundo que era mundo, mas imaginário. Não de Platao. De Platoua. Ou sem nome. Isso, era um mundo sem nome algum, um não-lugar, ou um lugar em excesso.

Era começo de primavera, mas neste lugar de mundo de fim de espaço não havia chuva, não havia umidade. Havia secura. E, em secura amarga, a menina s'alfabetava. Perdurava-se no alfabeto. AAAAAAh, Bêêêr, Cêêêê. Ela gritava. Ela falava. Ela entendia. E brincava. Aprendia-se do alfabeto. Desenhava estas letras. A. B. C. Demorava-se em cada uma delas. D. E. F. Mordia a língua, assustada com estas linhas tão retas. Tortuava-las artisticamente. G. H. I. O "i", um pingo.

Parou-se, a menina. Deparou-se com um pingo, em meio de tantas securas. Deparou-se com uma certa umidade que podia ser seguida de tantas outras. Tal gota foi como um canto de pássaro permeando o silêncio. E decidiu escrevê-lo de novo. Escreveu. Reescreveu. Fez um I sem gotas, um 'i com duas gotas, um i: com três gotas. Um "i" meio chuvoso.

E sentiu-se um pouco chuvosa, nestes tantos i's neologisticos. Parou-se. Pensou-se. Passou as mãos pelos seus cabelos longos. E com o cair de um fio de cabelo, pulou-se uma idea. Pegar estas letras todas. Pegar estes i's e as alfabetizações. Num conta-gotas.

Percorreu até acha-lo. Quantas gotas caberiam ali. Quantas palavras. Quantas ideias. Quantos cabelos. Quantas garoas. E a menina passou a recolher grafias. Recolhia as vogais, de pés descalços. Para recolher consoantes, se calçava. Recolhia as tintas 'a toa dos pingos dos i's. Gotificava o alfabeto. E nudificou o I de seu pingo.

E ao perceber o conta-gotas cheio de gramáticas, se empolgou com as falas, perfurou o silêncio. Precisava de contar estorias. Precisava se refrescar da secura. Precisava de serventia para aquelas gotas todas. E foi então que as bebeu, as virou todas duma vez. Como num banho. Como numa chuva. Como numa gotificação intensa. E falava feito doida. Perambulava em conversas, soltava as falas todas. Aquelas gotas aguaficavam sua garganta, davam espaço pra estoria, faziam estradas de letras.

E descobriu, então, que as palavras serviam era para refrescar securas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Perdidices

Eu queria ainda perder os medos,
as palavras,
os anseios.

Eu queria, um dia, perder segredos,
Ensinos,
os erros.

Quereria, mais: perder a rima.
Perder a métricca
.
.
.

Podia querer perder palavras,
exaurir as letras -
gramáticas.

Iria além, perderia o tudo,
perderia o nada,
a angústia, forçada,
por estas tantas
besteiras
cotidianas.

Quereria perder ainda os limites,
a vontade contida,
o medo da morte
a perda perdida.

E, quem sabe, então,
perder
a vida.

sábado, 30 de abril de 2011

Poetagem

Cada passo,
cada espaço,
pedaço.

O detalhe,
as palavras,
as linguagens.

Falar sobre o nada
- como aqui o faço
-Em metalinguagem.

Talvez seja o nada
que é tão bonito.
Enquanto o tudo
é cotidiano.

Talvez o silêncio
seja o preciso,
e o objetivo
de tanta fala.

Verbos, talvez
, sejam coisa nenhuma,
apenas completos,
Apenas
(Sentidos)

Nãoentendendo,
Continuo a propor
conjunções,
verbalizando,
como o Gerúndio,
O silêncio.

sábado, 27 de novembro de 2010

'Eleanor Rigby'

Meus olhos de fatiga, olhos-vira-lata, morimbundos, vagando nos devaneios de minha visão. Meu verbo era o particípio passado, a memória já tragada pelo pensamento. Minhas palavras eram o silêncio. Minha dor era o pretérito, e também o era a minha preocupação. O que viria a ser, o que ainda não houve, o que ainda deve ser pensado - isto não fazia parte de mim. Atravesso a rua. Milhares de carros perambulam em rapidez. As faíscas luminosas dos faróis me arrebatam os olhos como luvas que buscam dor e suor. Perto a mim, um homem de meia-idade, que tocava um violino junto 'a parada, em busca de um trocado para passar a noite.

-All these lonely people - where do they all come from?

De minha casa, tinha passado para buscar dinheiro. Não havia. O meu carro estava quebrado. Sem transporte. Andei até a parada em busca de uma gratuita passagem. Não Circulavam os grandes. Olhei para a tela do celular. O violino começava a me lacrimejar. A chuva me aquecia o corpo. Pensei em ligar para minha irmã - lembro de quando nos falávamos por horas penduradas, nos gostávamos e nos compartilhávamos, e assim o foi até a sagrada instituição familiar nos apartar. Pensei em ligar para os meus pais - não falava com eles desde que saí de casa, obrigada a sair de casa por escolher gostar das coisas que gosto. Pensei em ligar pros amigos - e percebi que não os tinha. E foi então que, apesar de sempre sê-lo, percebi o quanto eu era sozinha. Resolvi, já após dez anos, não inventar a tua presença para me confortar. E comecei a pensar para onde poderia ir.

-All these lonely people - where do they all belong ?

Lugar algum. Não havia propriamente um lugar pra ir - a exaustão passou a me rodear como decorativo. A melancolia passou e me vestir como derradeiro figurino. Não era dia, nem era noite. Era chuva somente, tempestade a qual secava aquela sede que nem mais sentia. Olho a minha volta.

-Ah, look at all the lonely people...

Perambulando num mesmo espaço, caio. E não chego a me levantar. O homem que tocava violino ia-se esvaindo, como se estivesse para finalizar. Fecho os olhos.

-Ah, look at all us lonely...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O arrepio

Contornou-me numa súbita insônia, riscou-me os dedos da mão, um a um, como se os admirasse a forma e desenhou o meu corpo com as pontas de seus dedos, com um veneno de riça. Rascunhava-me lentamente, pesando sobre o meu corpo. Meus olhos desabrocharam em sonolência, fechei minhas pálpebras em meio 'a hesitação, e parei por um momento.

Todo espaço possui sua transição, assim como todo tempo possui o seu vagar. Aquele tempo e espaço se aconchegaram 'a minha espera, e eu passeei por outro sítio, em outros ponteiros. Minha boca entreaberta, a única existência ali era o percorrer de sua tenra mão, que se espaçava por todo o meu corpo - nuca, dorso, seios, cabelos, lábios e pálpebras.

Quando lentamente abri os meus olhos-adejo , mirava abaixo, meus pés descalços, eu, nua como vinda ao mundo, desflorei o silêncio de meu estar, num agudo efêmero e fugaz, grito incontido, ao tremejar de meu corpo, gozo inconsciente.

Foi então que eu percebi que já não sabia qual espaço era real e qual ponteiro era certeiro. E, por fim, nem mesmo sabia distinguir o simples sentir da esvoaçada loucura.