domingo, 12 de setembro de 2010

Concreto Livre


Era uma cidade concreta e moderna - ou pelo menos era esta a pretensão. Impecáveis matemáticas eram a base de suas ideias arquitetônicas. Poder-se-ia dizer que cada candango inventava a sua própria catedral simbólica, em suas ambições, crenças e desejos. Considerava-me um candango, e é até engraçado dizê-lo. Vim à cidade em busca de uma nova vida. Como caminhoneiro, em meus apenas vinte anos, já conhecia o Brasil de cima à baixo, mas já pensava em quetar-me e quedar-me em um lugar.

Lembro-me especificamente bem de quando conheci Estella. Foi na inauguração da cidade. Na esplanada, bandas de rock ilustravam a modernidade. O céu de Brasília era promissor, e assim também eram as pessoas que ali inventavam uma cidade. Juscelino fazia seu discurso e eu, próximo a ele, fitava aquela multidão de candangos e políticos, até meus olhos encontrarem os dela. Tinha os cabelos desgrenhados, lábios cheios e olhos nordestinos. Era filha de alguém importante, isso eu podia dizer a primeira vista. Prendi aos olhos dela os meus, tornaram-se desimportantes as palavras de Juscelino, o sonho de Lúcio Costa e as belezas de Oscar Niemayer. Não me lembro o tempo que nos olhamos, pode ter sido alguns segundos ou horas a fio, mas foi tempo o suficiente para que passasse na minha cabeça a preocupação de com que dinheiro eu lhe compraria o anel.

Lágrimas Marítimas

De volta ao navio. Mais uma vez, arrumo as malas - que já se tornaram o meu armário -, estudo a rota e encaminho-me ao porto. A vida que aqui construí parece-me uma estória ilusória de navegação, parte de minha profissão. Sigo pelo oceano, antes em rios caudalosos, meus soluços como vítimas de lágrimas marítimas, Os mapas já decorados de tanto fitá-los, Percebo que passei a colecionar vidas como coleciono estrelas, em suas diferentes constelações em que as vejo nas diversas imensidões oceânicas em que já me vi.

Penso em, talvez, retornar. O carinho que criei. A família que fiz. Os sonhos que inventei em meio a suspiros apaixonados. Melhor recomeçar - é mais saudável, disso já sei. Enxugo o meu rosto e, ao lavar minhas mãos nestes mares, deixo minhas memórias ao pacífico.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Pedaços de solidão noturnos à Nassar

Dormíamos em quartos separados, éramos como esses casais modernos, que prezam pelo espaço e não seguem as tradições. Fazíamos já quarenta anos de casados, alguns nos olhavam com admiração, diziam o quanto nos devíamos amar. Acho que eu compartilhava dessa ilusão, de que de fato nos amávamos.

Esta noite, acordou-me em meu sono e, como sonâmbula, abriu minha porta sem nem bater - o que não era de costume -, com sua camisola descorada e um olhar que, apesar de não conseguir vê-lo na penumbra, presumia sê-lo taciturno. Quedou-se ali, em pé e em silêncio, como quem está a poucos passos de desmoronar - e eu cheguei a pensar que ela o faria, cairia em prantos, com estrondo. E eu também não ousei proferir uma palavra. Chegou perto a mim, deitou-se ao meu lado, e eu pretendi costumice, virei pro outro lado, como se o hábito percorresse a madrugada.

Ela levantou-se e foi ao canto do quarto. O seu estancamento tornou-se inquietação, e ela passou a perambular em um espaço mínimo. Roía suas unhas, mexia-se com os pés e cambiava suas expressões com veracidade. Chegou perto à minha cabeceira, e apanhou um dos meus blocos de anotações, nos quais eu guardava meus textos e poesias, e ela nunca ousava abrí-los sem que eu pedisse para que opinasse. Colheu, também, uma caneta que sempre deixava ao lado destes. Abriu a primeira página, na qual permeava uma poesia antiga que ali se detia como memória. Fitou-a com desdém e escreveu por cima, com letras garranchadas e despreocupadas, como um grito de súplica sonâmbulo:


- Pra onde foi o nosso amor ?

domingo, 1 de agosto de 2010

Romance com Clarice*

* Que sorriso você tinha. Combinava com os teus olhos, que fitavam veementemente e sentiam varonilmente. Você era todo aprumada, toda encantadora, olhares artísticos e palavras meio roucas. Lábios silentes, cílios expressivos, e um andar que te denunciava. Eu amava os teus fios de cabelo ruivos, finos e curtos que, apesar da pequenez, você insistia em prendê-los para trás. Para dizer a verdade, nos vimos poucas vezes - por esbarros ou coincidências-, mas eu tinha vontade de lhe falar a todo momento: Vamos nos casar, vamos nos casar numa vila pequena na Índia, ou na Turquia, que ninguém saiba, que ninguém veja, e fiquemos só nós dois, um com o outro - é fácil conseguirmos ficar juntos quando não há o mundo entorno para palpitar. Vamos nos casar em algum lugar pequeno e secreto da cidade grande.

Mas você não creeria. Ou simplesmente não quereria. Na tua mudez plena de palavras, também te compreendia pouco. A verdade é que você fazia questão de que ninguém te compreendesse. Insistias: - Não se preocupe em me entender. Me viver vai aquém de qualquer entendimento. - Mas você era várias, você era tantas, uma quase-todos, uma quase-tudo. E eu sabia, eu tinha certeza de que eras um mistério pra ti mesma.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Passa, trem, passa.


Era tempo de guerra - essa era uma expressão corriqueira no nosso país. As guerras eram intraregionais, todas entre diferentes etnias sul-africanas, e desde que nasci, trinta anos atrás, vivi somente seis meses de paz declarada. Tinha já seis filhos, um deles pequeno o bastante para ainda ser carregado como canguru. Eu o amarrava em minhas costas e o carregava para os trilhos comigo. Ali havia uma enorme concentração de pessoas, esperando para que o trem parasse, e pegássemos algumas reservas de comida. Alguns consideravam aquilo roubo, mas não havia outro modo de conseguirmos comida. Meu filho mais novo ainda não tinha cabelos, assim como eu não mais os tinha, e era de pele negra. Traços bonitos tem o seu filho, falavam alguns fotógrafos que diziam fazer um trabalho social ali pelas nossas terras.

Eram seis horas da manhã, e eu me preparava pra ir aos trilhos. Levantei-me e lavei-me com a água disponível - a qual. há alguns meses, vieram uns homens dizer que estava poluída e a gente não devia beber. Acordei o pequeno, amarrei este em minhas costas e saí em direção aos trilhos para tentar comida. Eu sentia dor, sentia frio, sentia fome e sentia cansaço. Esperava o trem, ele não passava. Sentei-me nos trilhos. Senti um pouco de aflição - o que não era costume, pela exaustão de pensar ou sentir. Chorei uma lágrima de tormento. Passa, trem. Senti vontade de revoltar-me; não conseguia, porém, levantar a voz. Passa logo, trem, passa.. Senti, enfim, um pouco de repugno por mim mesma, por não conseguir me dar - e aos meus filhos - uma vida minimamente digna.

Passa trem. Que vida, passa. Passa, trem. Que, dessa vez, ao invés d'eu te roubar os alimentos, lhe darei um pulo de surpresa e exaustão, e lhe concederei uma vida e meia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Amor Silente

Perguntava-me baixinho - Me amas ? - E eu respondia - Amo mais do que eu achava possível - E ela dizia - então diga a todos.

Mas importava-me somente que ela soubesse. Restava-me, então, perguntar-lhe - Tu sabes ? - Ela respondia que sim. E eu retrucava - Eu sei e você sabe. O amor é nosso. Pros outros é silente; é serene; é secreto.

No momento de minhas falas, ela olhava como quem gostasse. Agradavam-lhe os meus romantismos, as minhas frases improvisadas de amor. Mas logo depois voltava com a mesma história, queria que eu formalizasse o nosso amor. Queria uma palavra : namoro, casamento, qualquer palavra que selasse.

Revirei-me. Mudei meu modo de agir. Trazia-lhe flores, palavras, cartas. Dediquei-lhe tangos. Cantei-lhe choros. Escrevi-lhe poesias. Deixei de deixar minhas palavras como fantasmas. Abri-me a ela. E lhe amei de todos os modos que pude, fiz tudo que me era cabível, dei-lhe o mundo e todo o amor que me restava.

Mas ela recusou. Bastava-lhe apenas uma prova, mesmo que falsa. Não lhe importava tanto o amor, isso eu só pude perceber depois. Bastava-lhe que o mundo soubesse.

Depoimento-ficção d'um preso- Inspiré de Truffaut


Não, não, eu não nasci em berço. Nem me lembro, não senhora, de ter sido bem-tratado. Perdi minha mãe aos nove anos, e meu pai nos abandonou. Minha tia me acolheu, e já me pôs a trabalhar. Nunca reclamei, nem mesmo considerava errado. Só acho que gostaria de, talvez, viver o mundo de um outro modo, assim, quando eu via os meninos das casas que eu limpava fazendo outras coisas que não trabalhar. Às vezes queria só isso: conseguir enxergar quão bonito era um beijo, quão bela era uma pessoa, ou quão significativo era um olhar. O tempo não me permitia. Era trabalho, trabalho, trabalho, que nem poderia ser considerado trabalho infantil. Nem acho plausível considerar que tive uma infância. Pode escrever isso aí, na sua caderneta, psicóloga. Posso te chamar assim ? Psicóloga é que nem professora, né, que a gente chama de professora mesmo, ao invés de chamar por nome. Tá bom, certo, como eu preferir.

Foi então, um dia, que resolvi pegar algo emprestado. Eu tava limpando o quarto de um menino, que tinha lá os seus treze anos, enquanto eu beirava os meus quinze. Ele tinha uma máquina fotográfica - não era profissional, e o seu preço era ínfimo em comparação à fortuna que ele possuía. Enquanto arrumava a sua cama, olhei de relance a câmera. Vi se tinha alguém em casa. E resolvi provar. Encostei-lhe os dedos. Ligou. Aparecia naquela pequenina tela a imagem que me estava em frente. Apertei o botão de cima. Flash. E foi naquele momento que tirei a minha primeira foto. Não era uma máquina profissional, mas aquela imagem era linda. As cores eram quase naturais, e de alguma forma, via-se naquela precisão do momento pausado uma beleza imensurável.

Eu ? Não, não, psicóloga. Não ousaria olhar suas pernas. Não que não sejam bonitas, tenho certeza que são. Mas seria muito desrespeito. Percebi, apenas, que a senhora as cruzou.

Tá certo, voltando ao acontecido, eu não roubei-lhe. Apenas peguei emprestado. Sem pedir, sim, mas sabia que se eu pedisse, não me emprestaria. Tirei fotos tantas. Tirei fotos de pessoas, de beijos, de momentos, de teatros, de lugares - Esplanada, Museu Nacional, as tesourinhas, a rodoviária. Brasília tem uma beleza que podia ser capturada a qualquer momento, em qualquer lugar. Era tudo tão concreto, tão bonito. Devolveria na semana seguinte aquela máquina.

E quando a fui devolver, não havia percebido que o menino - dono do quarto, da máquina, de tudo - me observava, me seguia. E me apontava logo quando eu a deixava em sua cabeceira - MÃE, MÃE, ELE ROUBOU A MINHA MÁQUINA! - E chorava feito um bebê. Esperniava. Sua mãe chocou-se. Mandou-me ao juízado de menores, entende ? Daí foi que cheguei aqui. Acho que todo mundo daqui tem que visitar a senhora, né psicóloga ? Pois eu queria só lhe pedir...

- Acabou o seu tempo, pode se retirar.

Depoimento do preso 33 à psicóloga 22, juízado de menores.