sábado, 30 de abril de 2011

Poetagem

Cada passo,
cada espaço,
pedaço.

O detalhe,
as palavras,
as linguagens.

Falar sobre o nada
- como aqui o faço
-Em metalinguagem.

Talvez seja o nada
que é tão bonito.
Enquanto o tudo
é cotidiano.

Talvez o silêncio
seja o preciso,
e o objetivo
de tanta fala.

Verbos, talvez
, sejam coisa nenhuma,
apenas completos,
Apenas
(Sentidos)

Nãoentendendo,
Continuo a propor
conjunções,
verbalizando,
como o Gerúndio,
O silêncio.

sábado, 27 de novembro de 2010

'Eleanor Rigby'

Meus olhos de fatiga, olhos-vira-lata, morimbundos, vagando nos devaneios de minha visão. Meu verbo era o particípio passado, a memória já tragada pelo pensamento. Minhas palavras eram o silêncio. Minha dor era o pretérito, e também o era a minha preocupação. O que viria a ser, o que ainda não houve, o que ainda deve ser pensado - isto não fazia parte de mim. Atravesso a rua. Milhares de carros perambulam em rapidez. As faíscas luminosas dos faróis me arrebatam os olhos como luvas que buscam dor e suor. Perto a mim, um homem de meia-idade, que tocava um violino junto 'a parada, em busca de um trocado para passar a noite.

-All these lonely people - where do they all come from?

De minha casa, tinha passado para buscar dinheiro. Não havia. O meu carro estava quebrado. Sem transporte. Andei até a parada em busca de uma gratuita passagem. Não Circulavam os grandes. Olhei para a tela do celular. O violino começava a me lacrimejar. A chuva me aquecia o corpo. Pensei em ligar para minha irmã - lembro de quando nos falávamos por horas penduradas, nos gostávamos e nos compartilhávamos, e assim o foi até a sagrada instituição familiar nos apartar. Pensei em ligar para os meus pais - não falava com eles desde que saí de casa, obrigada a sair de casa por escolher gostar das coisas que gosto. Pensei em ligar pros amigos - e percebi que não os tinha. E foi então que, apesar de sempre sê-lo, percebi o quanto eu era sozinha. Resolvi, já após dez anos, não inventar a tua presença para me confortar. E comecei a pensar para onde poderia ir.

-All these lonely people - where do they all belong ?

Lugar algum. Não havia propriamente um lugar pra ir - a exaustão passou a me rodear como decorativo. A melancolia passou e me vestir como derradeiro figurino. Não era dia, nem era noite. Era chuva somente, tempestade a qual secava aquela sede que nem mais sentia. Olho a minha volta.

-Ah, look at all the lonely people...

Perambulando num mesmo espaço, caio. E não chego a me levantar. O homem que tocava violino ia-se esvaindo, como se estivesse para finalizar. Fecho os olhos.

-Ah, look at all us lonely...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O arrepio

Contornou-me numa súbita insônia, riscou-me os dedos da mão, um a um, como se os admirasse a forma e desenhou o meu corpo com as pontas de seus dedos, com um veneno de riça. Rascunhava-me lentamente, pesando sobre o meu corpo. Meus olhos desabrocharam em sonolência, fechei minhas pálpebras em meio 'a hesitação, e parei por um momento.

Todo espaço possui sua transição, assim como todo tempo possui o seu vagar. Aquele tempo e espaço se aconchegaram 'a minha espera, e eu passeei por outro sítio, em outros ponteiros. Minha boca entreaberta, a única existência ali era o percorrer de sua tenra mão, que se espaçava por todo o meu corpo - nuca, dorso, seios, cabelos, lábios e pálpebras.

Quando lentamente abri os meus olhos-adejo , mirava abaixo, meus pés descalços, eu, nua como vinda ao mundo, desflorei o silêncio de meu estar, num agudo efêmero e fugaz, grito incontido, ao tremejar de meu corpo, gozo inconsciente.

Foi então que eu percebi que já não sabia qual espaço era real e qual ponteiro era certeiro. E, por fim, nem mesmo sabia distinguir o simples sentir da esvoaçada loucura.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Manhãs Vadias

Ao escutar algumas destas tuas palavras, me veio em mente o meu rotineiro cotidiano infantil, no qual a terra úmida curava a febre de meus pés que, doentios de euforia, corriam por entre as modorras, fugindo de minhas obrigações cotidianas, em busca de um poço de sombra, ao peso dos troncos silenciosos daquela fazenda. O tempo, versátil e volátil, brincava comigo em minhas manhãs que, vadias, pareciam passar em um piscar de olhos, levadas pelos ventos do sul em meio 'a minha desatenção sonâmbula. Apressava o meu passo para encontrar-te, sempre deitada no mesmo espaço sombrio, em fuga do sol, com os seios infantis voltados para o céu, os olhos fechados e os ouvidos aguçados, atentando o meu respirar. Prolongava-me ali, ao teu lado, segurava a terra junto a ti, como se fôssemos um só corpo e nem mesmo entendêssemos. Silenciaríamos ao som dos pássaros a cantar o nosso amor ainda ingênuo.

E me veio rapidamente esta memória, como um piscar, como um lapso em meio ao teu discurso. Te olho, neste momento, com os olhos cheios de lágrimas, a soluçar angústias, enquanto o pequeno te chama no quarto ao lado. Tuas palavras vociferadas de cólera, o telefone jogado na parede, a irritação que culmina com as tuas palavras - estou esperando mais um filho seu.

Eu gosto de crianças, eu choraria, riria, amaria esta notícia em qualquer outro instante. Sem entender a razão, apreendi o meu vôo fugaz dos cílios, e então me veio este sopro na memória, como uma epifania, de que talvez eu preferisse nosso amor quando a gente ainda não o sabia.

domingo, 17 de outubro de 2010

Versos d´Insônia

Tuas páginas de abandono
redondilham-me a pálpebra.
Sinceras palavras,
Epifania.

Tergiverso meus anseios,
busco a fuga em contigentes.
Diferentes continentes.
Mas hesito.

Lágrimas, talvez,
me vëm como amantes pálidas,
Flácidas sensações,
Olhar velado.

Ceguísticas vistas
me propõem uma imagem -
Distorcida e apagada,
Ao teu lado.

Proponho-me solidão,
lentidão em amargo,
remete-me o silêncio
Extravasado.

E na angústia da madrugada,
Tua languidez vem em sono.
Amor adormecido -
Sonâmbulo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Carta à Ninguém

Aqui estou eu, mais uma vez, a jogar letras em um pedaço de papel que nem mesmo tem destinatário, apesar de ser destinado à você. O relógio sussurra ininterruptamente em meus ouvidos. Decido calá-lo. E calo também o tempo, que parece sempre querer me atrasar. A vida aqui corre mais do que no nosso Brasil. Talvez sejam os ventos ingleses que, neste outono, choram em minhas janelas em rapidez, levando consigo folhas secas. Folhas secas que me remetem à ti. Lembro de como era um de teus vícios - folhas secas, cigarros e o som de estouro daquelas bolhas de ar de pequenos sacos plásticos que viriam em novos móveis. O outono também me agrada. Consigo andar pelos campos perto de minha casa, observar as flores a desvestir-se à nudez do inverno. E fecho os olhos para que me venha a tua imagem em mente. E suspiro.

Te penso a cada segundo, e se eu contasse os segundos que possivelmente faltam para que nos vejamos novamente, chegaria à conclusão de que morreria antes de ver-te - definharia de amor. Sinto falta de tua invenção estatística, de teus cantos no chuveiro, de tuas palavras sentimentais, e do coentro que só você sabe o ponto, que acompanhava o filé, que só você acertava o meu gosto, ainda que vegetariana.

E cá estou eu, do outro lado do mundo, sem saber se te ligo e te digo tudo que me enlaça a garganta, num grito contido, e chego a m'enduvidar se deveria te mandar cartas respondendo as tuas. Elas vêm sempre, dia sim, dia não, com aqueles enhances artísticos pensados somente por ti. Queria bem te responder. Mandar abraços aos nossos filhos. Seria muita hipocrisia. Não quero que sofras por mim. Nem mesmo sei se voltarei. Não quero que entendas meus sentimentos. 'O exército te mudou muito', você sempre disse, e não acho que você tenha que entendar minhas mudanças. Eu ainda tento entendê-las. E quanto mais me penso, quanto mais me entendo, mais eu percebo o quanto eu não sou eu. Ao menos ainda me resta o teu amor. O nosso amor.

Espero que esteja bem. E, de fato, imagino nossa casa como uma floricultura, plena de rosas vítimas dos teus charmes rodados. E sei que, apesar das cartas que mandas trivialmente, estás a te deleitar com homens tantos, e a se conhecer com mulheres várias. E gosto de pensá-lo.

A nossa distância é o silêncio, que um dia expressou a nossa intimidade. Pensei em medí-la, não em metros, mas em palavras e súplicas. No entanto, contar caracteres me deprimiria tanto que preferi não fazê-lo. E aqui sento eu, em frente a uma máquina de escrever antiga, e imagino-te perto a mim, dizendo o quanto sou ultrapassado. O corriqueiro whisky ao meu lado. Penso na hipótese de poder voltar ao meu lar. De poder voltar à você.

Não posso te escrever. Se eu te escrever, entenda, apenas anteciparia minha morte. Pensar-te, por enquanto, me basta. Pensar-te e amar-te.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Comodismo

Nesta tarde de domingo, não há como lembrar de nada senão de nossos domingos, nos quais nos trancávamos em nossa casa, nós dois isolados do mundo, como se não o suportássemos. Você cozinhava algum prato do dia, que normalmente já acordava com a ideia de fazer. Cada domingo, você acordava com vontade de um país diferente. Deitávamos no nosso sofá, com taças de vinho, Miles Davis nos acompanhava, e no final da tarde, algum filme - que eu pedia enfadonhamente para que você não o locupletasse de críticas. Era o dia que mais gostava da semana. Nos domingos, me fugia aquele desejo imoderado de querer sempre fazer algo produtivo, mania que trouxe da América. Aliás, acho que o que mais sinto falta da gente é os domingos, os quais me parecem agora acesos de solidão. Não sei o que aconteceu conosco. Diziam alguns que o comodismo viria com os anos de casamento, mas sempre fomos contra, dizíamos que seríamos excessão matrimonial. Quando nos conhecemos, nós dois extravasando ideais revolucionários, você com seus discursos que transbordavam vermelhidão, e eu ainda meio perdida, mas com uma vontade imensurável de querer mudar o mundo. Não cansávamos de beijos, de romantismos, de passionidades. Hoje, a sua bandeira vermelha foi trocada por um discurso neoliberal, as suas palavras de amor silenciadas pela descrença. Você diria que amadurecemos. Eu diria que nos acomodamos - nos ideais e no amor.

É o cotidiano, talvez , que nos esfriou. Esqueci, no entanto, o nosso passado cotidiano. Não lembro bem o que nos passava durante todos estes anos. Fugiram-me à memória as nossas vontades, contadas no sofá de nossa sala - devem ter sido tragadas pela lareira que nos aquecia nos invernos. E mal me lembro de memórias, engolidas por fotografias reveladas, algum dia olhadas, e hoje jogados no galpão.

Em meu esquecimento, lembro-te, ao menos, em carne, que me era, antes, trêmula, e hoje me remete apenas o conforto.

E, quem sabe - apesar de minhas frustrações -, não é o comodismo melhor do que o amor.